O que você sabe sobre a música indiana? - Parte 1

Por Marcus Wolff

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Como compreender a música e as artes na Índia sem considerar suas diferentes matrizes culturais e o choque entre seus povos formadores (drávidas e indo-europeus invasores) e os fatos históricos decorrentes de um processo de dominação cujas marcas estão ainda tão presentes na sociedade e na cultura, a despeito dos esforços de grandes líderes como Mahatma Gandhi, Sri Aurobindo e do próprio escritor compositor e poeta Tagore para criarem uma nova nação livre de tais amarras?

A chegada dos povos arianos ao subcontinente indiano por volta de 1500 a.C. (alguns afirmam 2000 a.C.) transformou completamente a vida social, política e cultural dessa vasta área da Ásia do sul. Impondo sua cultura aos povos dominados, os arianos (considerados indo-europeus) deram início a um processo de sanscritização do subcontinente que envolveu não apenas a filosofia, a língua, a literatura e a religião como também todas as artes. Cumpre destacar que do choque cultural entre esses povos nasceu uma cultura híbrida, que procurou compatibilizar elementos muitas vezes díspares ou ao menos heterogêneos. Todavia, mitos narrando os conflitos entre os deuses revelam o que o poeta e compositor R. Tagore (1861- 1941) percebeu como sendo indícios da tendência dos arianos a manter seu isolamento, alegando sua superioridade também no plano cultural.

No plano social, o sistema de castas pode ser observado como sendo um outro modo através do qual os arianos manifestaram seu desejo de separação, ocupando assim as posições privilegiadas num sistema de exclusão social que conseguiu manter os povos dominados segregados nas castas subalternas até o séc. XX e mesmo após a criação de um Estado indiano independente.

Como compreender a música indiana sem levar em conta a continuidade entre o presente e o passado na cultura e na vida social indiana? Bonnie C. Wade (Music in India: the Classical Traditions. Delhi, 1994) observou que em termos indianos não há lacunas, mas continuidade. O valor atribuído ao passado védico ou aos mitos religiosos transparece quando alguns musicólogos indianos, além dos professores de música, reiteram ainda hoje as origens divinas da música e buscam as bases da teoria musical atual em tratados tão antigos quanto o Natya Shastra atribuído ao sábio Bharata (escrito em algum momento impreciso entre os séculos II a. C e VI d. C.) mesmo quando a prática musical atual já não segue a antiga teoria musical da Antiguidade.

A resistência à mudança cultural e até mesmo ao reconhecimento das rupturas existentes ao longo da história parece ser um traço ainda forte na Índia, que somente no final do séc. XX começou a dar sinais de que o processo de modernização atingiu sua fase final. É bom lembrar que o processo de modernização da Índia, iniciado na década de 1820-30, esbarrou num campo de soberania próprio que o movimento nacionalista respeitou e percebeu como sendo um “domínio interno”, no qual a identidade cultural seria mantida longe do poder da metrópole. Se por um lado essa estratégia permitiu que a criação de uma cultura nacional moderna diferente da ocidental, por outro manteve certas áreas do conhecimento como a filosofia, a historiografia e a própria musicologia bem distantes do racionalismo ocidental.

* Este texto será publicado em 3 partes.

Leia a PARTE 2 clicando aqui.

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