O inclassificável Ney Matogrosso
Por Oleno Netto
Algum apresentador de TV costuma dizer “quem sabe, faz ao vivo”. Provavelmente porque é assim que se pode vivenciar toda a energia do artista em voz, corpo e alma. Em seu novo show, “Inclassificáveis” (já lançado em DVD), Ney Matogrosso exibe sua excelência vocal e presença de palco que o consagraram como o maior artista pop que o Brasil já teve. Não é hitmaker, mas polêmico e performático, características raras quando se pensa em cantores brasileiros.
Parte dos espetáculos do Cabaré do FILO (Festival Internacional de Londrina) – festival de teatro que acontece anualmente no mês de Junho –, só se ouvia falar do show de Ney Matogrosso, desde que as atrações deste ano (Elza Soares, Fernanda Takai, etc) foram divulgadas. Adolescentes falavam “daquela bicha” que vinha fazer show e seus pais queriam ver. Soube de marido dizendo à esposa que o Ney era o único cara com o qual iria pra cama. Além de, claro, mulheres ensandecidas com a vinda “do cara”.
Foram duas noites de ingressos esgotados e estavam todos lá: os adolescentes; os loucos; os esposos; as mulheres; as bichas; as sapas; os velhos e as velhas. Mil e oitocentas pessoas sedentas pela arte de Ney.
O exuberante figurino assinado por Ocimar Versolato, adorna a interpretação marcante das canções e o gestual sexual do cantor. Um cenário sem grandes apelos tecnológicos e tudo a servir à sua performance. Acompanhado de uma banda muito competente, destaque para os vocais e carisma do guitarrista Junior Meirelles, e produzido pelo ex-integrante dos Secos e Molhados, João Mario Linhares.
Ao vivo entende-se porque Ney Matogrosso é tido como um dos maiores, se não o maior, performer brasileiro. Se hoje em dia sua figura andrógena ainda impressiona, espanta e causa admiração, dá pra se concluir que não é exagero quando se lê que os “Secos”,banda que revolucionou o conceito de espetáculo, está servindo até hoje de inspiração para artistas mundo afora. Grande parte dos créditos disso são de seu frontman, Ney Matogrosso.
Alternando sucessos da carreira solo com músicas inéditas (do CD homônimo), Ney fez justiça a sua fama e levou a platéia histérica a loucura. Já fui a muitos shows e pouquíssimas vezes vi a coisa inflamar daquele jeito. Ana Carolina quer comer a Madonna e ali todos queriam comê-lo. Com boa forma física e vocal, aos 66 anos, sem travar um único diálogo com o público, disse através de suas músicas tudo que suas palavras jamais poderiam precisar. Superou as mais altas expectativas e pôs por terra as afirmações de João Ricardo, principal compositor do Secos e Molhados, quando disse recentemente que Ney não havia feito mais nada de interessante depois da banda. Pura dor de cotovelo.
No palco, o verdadeiro habitat deste pavão misterioso, Ney Matogrosso confirmou que está além de figuras míticas da nossa cultura pop ao se colocar ativo em sua arte, sem preocupações em ser parte de um único gênero, de ser simplesmente um ícone ou uma diva. Trata-se de algo pré-qualquer-adjetivo-fugaz, uma matéria lapidada e ainda assim bruta, tão único, que só poderia ser chamado de inclassificável.





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