Guia para Morrissey
Por Willy Moura
Com disco novo e 47 anos completos recentes, Morrissey consolida seu retorno ao primeiro escalão do business que ele tanto já espinafrou. Mas o caminho foi bastante tortuoso, e houve época em que parecia mesmo que o bigmouth era assunto do passado. Confira a trajetória álbum a álbum (devido à extensão, foram evitadas coletâneas não lançadas no Brasil). Vale a ressalva prévia de que este texto se baseia apenas nas livres impressões de quem vos escreve, o que não é propriamente desprezível, considerando que seu fanatismo pela figura é tão grande quanto o dela pelo Manchester United.
Para entrar no clima, aperte o play enquanto lê o texto:
VIVA HATE (Sire, 1988) ***
A imprensa detestou à época. Diziam que a anunciada parceria com o one-man-show Vini Reilly, do Durutti Column, revelou-se restrita a pouquíssimas faixas e que quem comandava mesmo a barca furada era o enjoadinho compositor e produtor Stephen Street. De fato, parecia mesmo um petardo fadado apenas a comprovar que as acirradas críticas ao derradeiro álbum dos Smiths, Strangeways, Here We Come (1987), eram exageradamente injustas. A esplendorosa introdução de Alsatian Cousin, abrindo o disco, não passava de alarme falso para um conjunto completamente irregular, salvo apenas pela força de Suedehead e Everyday Is Like Sunday, dois clássicos guardados no panteão de hits para a eternidade. No entanto, o tempo passou, a obra dos Smiths demonstrou-se tão incomparável quanto a seleção brasileira de 70, e a mediocridade do pop e rock britânicos de anos seguintes revelou-se, este sim, parâmetro apropriado para considerar esta obra, no mínimo, aprazível e historicamente importante. É fundamentalismo extremado negar beleza a pérolas como Ordinary Boys, Break Up The Family ou Bengali In Platforms. Está disponível uma edição nacional com várias faixas-bônus gostosas extraídas de singles, que tornam a aquisição mais atraente.
BONA DRAG (Sire, 1990) ****
Dá continuidade à (louvável) prática dos Smiths de lançar compilações de canções lançadas apenas em singles ou b-sides (condenável), o que equivale à álbuns inéditos para populações fora do mercado das mini-bolachas, como a brasileira. Figurinhas repetidas, aqui, só Suedehead e Everyday Is Like Sunday, o que não é demais nem mesmo em pista de dança. Ao contrário do anterior, e apesar de Stephen Street permanecer onipresente, não tem sequer uma música propriamente ruim. Pancadas típicas do pós-punk inglês como Piccadilly Palare, Interesting Drug e Hairdresser On Fire vieram à luz graças a essa coletânea, mas o que a torna realmente indispensável são November Spawned a Monster e The Last Of The Famous International Playboys, obrigatórias em qualquer lista de dez mais do cantor. Cada ano que se passa essa seqüência de catorze preciosidades torna-se ainda melhor, como um scotch.
KILL UNCLE (Sire, 1991) *
O fundo do poço. A péssima produção contamina até a capa, com a foto mais medonha que Moz já tirou na vida. A ruindade uniforme o torna quase um álbum conceitual (basicamente: teclados aleatórios embalando um fiapo de voz). Se isoladamente o álbum já seria suficiente para qualquer fã cortar a garganta com o ladinho do vinil, a razão de uma depressão ainda mais arraigada foi imaginar que, se o álbum de estúdio anterior era uma meia-bomba, este segundo passo era a evidência incontestável do sentido descendente da ladeira. Deu saudades de Stephen Street. O próprio Morrissey dá permissão de falar mal à vontade, okay? Boa-vontade arquivológica é motivo único para que incluam a faixa de abertura, Our Frank, em coletâneas tipo “best of”. Asian Rut poderia ser a “música de trabalho” em coletâneas tipo “worst of”. Fãs exagerados já se flagraram ouvindo The Harsh Truth Of The Camera Eye e (I’m) The End Of The Family Line em momentos menos exigentes, mas depois passa.
YOUR ARSENAL (Sire, 1992) *****
A reviravolta na trama. Uma obra-prima, com o legendário Mick Ronson, ex-parceiro de David Bowie, comandando o manche. Aqui, Morrissey formou a banda que o acompanha até hoje, com Alain White e Spencer Cobrin no centro do vendaval, e lançou um álbum impecável, coeso, com um forte e surpreendente sotaque rockabilly contaminado por glam. Lançado como pronto candidato a um dos melhores álbuns daquela década, encontrava-se em absoluta sintonia com o indie rock que já imperava, ou, até mesmo, antecipando sonoridades que se tornaram comuns no britpop. Temas clássicos específicos são revisitados (como a pressão da indústria fonográfica, em We Hate It When Our Friends Become Successful), mas causou muita polêmica uma certa xenofobia de versos como “England For The Englands” (em The National Front Disco). Bobagem: foi a partir daqui que o esquálido e pálido homem de Manchester instalou-se de vez na saudável e ensolarada Los Angeles. O camaleão Bowie veio a fazer uma versão de I Know It’s Gonna Happen Someday em seu Black Tie, White Noise - glória suprema e eterna.
BEETHOVEN WAS DEAF (EMI, 1993) ***
Mais um emblema da boa fase do que qualquer outra coisa. Afinal, álbuns ao vivo são chatos mesmo e nem Morrissey vai escapar disso. Aqui, canta feliz e bem-humorado para uma platéia de franceses enlouquecidos. Vale por faixas antes não aportadas em nossas terras: The Loop, Sister I’m a Poet e Jack The Ripper. Não tenho conhecimento de registro de estúdio dessas duas últimas.
VAUXHALL AND I (Sire, 1994) *****
De longe o momento mais luminoso da carreira do artista, prováveis reflexos do sol de Los Angeles e de muito dinheiro no bolso. Quem cantava dez anos antes versos como “there’s more to life than books you know, but not much more” agora entoa vigorosamente a importância de grudar nos amigos, a boa saúde cardíaca e a importância de encontrar sozinho um caminho para erguer a carreira. Pelo visto encontrou. Este ganha do álbum anterior por ser menos focado em uma linguagem musical específica, ou seja, rockabilly. Os climas são os mais variados possíveis: do início esplendoroso de Now My Heart Is Full à simplicidade rica de rockões como Billy Budd, chama atenção a deliciosa releitura à la Serge Gainsbourg de Lifeguard Sleeping, Girl Drowning. Reside aqui um episódio maior da carreira do senhor: a impagável The More You Ignore Me, The Closer I Get, uma das melhores letras pop jamais escritas.
WORLD OF MORRISSEY (Sire, 1995) ****
Mais uma daquelas coletâneas cheias de singles e lados B quase-inéditos. Retrato de uma fase exuberante de produção mais recente, como em Boxers, Whatever Happens, I Love You ou Have-a-Go Merchant. Tem ainda uma interessantíssima cover de Moon River, de Henry Mancini.
SOUTHPAW GRAMMAR (RCA, 1995) ***
Morrissey muda de gravadora e mostra que aprendeu até coisas mínimas com David Bowie, como lançar bons álbums, não exatamente inesquecíveis, com poucas e longas músicas (mais exatamente oito, sendo que duas passam de dez minutos). O disco inteiro é bastante interessante (apesar de ousadias como um solo introdutório de dois, três minutos, em The Operation), mas a faixa de abertura, a apoteótica The Teachers Are Afraid Of The Pupils, vale o todo. Ser a única canção com a letra transcrita no encarte pode ser uma evidente pista de que foi a verdadeira desculpa para compor e gravar todo o resto.
MALADJUSTED (Mercury, 1996) ***
Marca o início de uma nova fase de decadência. Embora seja nitidamente uma obra mediana, desta vez é diferente por ser um álbum muito fácil de se ouvir. Tem melodias e refrões grudentos, como os do quase-hit Alma Matters. Há espaço para arranjos descomprometidos, menos inspirados e de fácil deglutição, que caberiam perfeitamente em trilhas de novela das 8, como em Wide To Receive. As letras são acima da média, mas retomam com mais ênfase a desgastada fórmula do ninguém-me-ama, ninguém-me-quer, parcialmente abandonada na recente boa fase, e com menos ironia do que o habitual. Como nada é à toa na vida, o retrocesso da felicidade de outrora é responsável pela beleza inclassificável de Trouble Loves Me. Vale, mas marcou o início do maior recesso produtivo de Morrissey, período no qual pemaneceu inclusive sem gravadora. “Curiosamente”, foi quando passou a cantar pela primeira vez músicas dos Smiths em seus shows, inclusive no Brasil.
SUEDEHEAD - THE BEST OF MORRISSEY (EMI, 1997) *****
A primeira coletânea em sentido estrito. A seleção é extremamente feliz, pois ataca muito bem em três frentes: os megahits (Suedehead, Everyday Is Like Sunday), o efetivamente “melhor” (Boxers, Hold On To Your Friends) e faixas não disponíveis nos álbuns anteriores, com menção especial a um belo dueto com Siouxsie Sioux, Interlude.
YOU ARE THE QUARRY (Attack, 2004) ****
Um novo começo. Fãs de carteirinha chegaram a gostar menos que a reverente e unânime crítica. De fato, os arranjos são menos inspirados que experiências anteriores, mas a força das faixas é inegável, principalmente pelas letras. Nelas, Morrissey se reinventa de forma definitiva para assegurar seu posto em artistas perenes, que não se corroeram pelo passar das décadas. Se antes a ironia era um disfarce para uma melancolia inerente à sua imagem, que servia para rir do mundo, agora ele usa o disfarce da melancolia para ironicamente rir de si mesmo. Letras como a de Let Me Kiss You são quase uma paródia (“Close your eyes and think of someone you physically admire and let me kiss you”). Alguém tão rico, admirado e cheio de amigos precisa mesmo de muita cara-de-pau para cantar The World Is Full Of Crashing Bores ou I Have Forgiven Jesus (será que Ele pediu perdão?). Com muita má-vontade você pode ser capaz de querer pular umas duas faixas do disco. Vendeu feito água e até no Brasil chegou a ser lançada uma edição especial, com um segundo CD cheio de singles e lados B, não propriamente “indispensável”.
LIVE AT EARLS COURT (Attack, 2005) ***
Tem o mesmo papel que teve Beethoven Was Deaf, ou seja, o de mostrar que se vai muito bem, obrigado. É o primeiro registro oficial a conter versões ao vivo dos Smihts. Vale por ouvi-lo atualizar o universal refrão de Bigmouth Strikes Again: agora, é o iPod de Joana D’Arc que começa a derreter na fogueira.
RINGLEADER OF THE TORMENTORS (Attack, 2006) *****
Nova obra-prima, saudada por muitos como o ápice da carreira solo. Mesmo que seja um exagero, é reconfortante ver gente tarimbada falar isto quase vinte anos após o fim dos Smiths. Grandes discos por vezes são aqueles que marcam já na primeira audição; outros, como é o caso deste, tornam-se mais incríveis a cada execução. Diferentemente de outras ocasiões, guarda coerência com o trabalho anterior, em proposta, mas ganha na maturidade dos arranjos, que contam até com Ennio Morricone (na dramática Dear God Please Help Me) ou corais de crianças (as belíssimas The Youngest Was The Most Loved e The Father Who Must Be Killed). Com coesão, Morrissey passeia desenvolto pelo dramalhão da extensa Life Is a Pigsty, pelo pop perfeito do single You Have Killed Me, pelo velho sotaque rockabilly, em I Just Want To See The Boy Happy, ou até mesmo pelos ora já incorporados climas novela-das-8/Antena 1, em I’ll Never Be Anybody’s Hero Now. Um primor com cara de final feliz, consonante com sua nova fase romana (sim, Roma na Itália) e casada (there’s more to life than books, you know). Apesar de ter recebido um massivo esquema de divulgação e concertos lá fora (que tal ingressos vendidos em cinco minutos?) - suprema mancada - ainda aguardamos o lançamento no Brasil.




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