London Calling faz bem aos ouvidos!

Por Oleno Netto

capaEntra ano e sai ano, as gravadoras lançam edições especiais de álbuns que venderam horrores e/ou tiveram influência em toda uma geração. Não foi diferente com “London Calling”, dos ingleses The Clash, que em setembro de 2004 saiu em uma edição tripla, que continha o trabalho original remasterizado, um cd com suas demos, mais cinco canções inéditas, e um dvd de imagens raras do seu making-of, performances ao vivo da época de seu lançamento e entrevistas recentes, intercaladas em forma de documentário.

Lançado em dezembro de 1979 na Inglaterra e no mês seguinte nos EUA, “London Calling” não foi um álbum feito para se tornar um clássico, como havia sido o também terceiro LP de Bruce Springsteen, “Born to Run”, de 1975. Depois do fracasso de seu segundo trabalho, o esquecido “Give ‘Em Enough Rope”, a banda tinha rompido relações com seu empresário e estava endividada, após encontrarem um estúdio improvisado que ficava nas dependências de uma fábrica desativada de borracha, compuseram entre maio e junho daquele ano o que seria o embrião do novo álbum. A luta maior era pela sobrevivência e não qualquer satisfação egóica.

Depois, com o apoio do produtor Guy Stevens, figura notória do movimento mod*, finalizaram em um estúdio profissional as 19 faixas que integrariam o duplo vinyl. Entre cadeiras arremessadas no chão e um banho de vinho sobre as teclas de um piano, Guy fazia de tudo pra manter o gás da banda enquanto tocava. Conseguiu. Enquanto é dificílimo encontrar um cd de 12 canções que tenha qualidade relevante em metade delas, sobra inspiração em todo “London Calling”, que do começo ao fim mantém a mesma dignidade e pique, passeando por ritmos como rockabilly, reggae, ska e jazz.

Foi misturando fatos da história recente (“Spanish Bombs”), ao conformismo do proletariado (“Clampdown”), passando de maneira mais profunda que outras bandas da época por temas como sexo (“Lover’s Rock) e drogas (“Koka Kola”), que o The Clash abriu caminhos para a cena punk no mercado fonográfico norte-americano e emplacou hits como “Train in Vain” (que sequer constava na contra-capa da primeira prensagem do LP). Destaque para a produção de Guy em “Jimmy Jazz” e “The Card Cheat”, que sutilmente lembra David Bowie.

A própria banda proclamou na época que “London Calling” era o último álbum de rock a ser feito, prevendo a explosão do pop na década que começava, e usou a mesma grafia utilizada na capa do primeiro LP de Elvis Presley, de 1956, na qual ele tocava alegremente a um violão, em uma foto tirada por Pennie Smith de Paul Simonon quebrando raivosamente seu baixo, em um concerto em Nova York.

Polêmicas à parte, esse não foi o último álbum do rock, mas com certeza é um dos mais influentes de todos os tempos. Só pra ser ter uma idéia da extensão de sua penetração cultural, não só na música como no cinema, “Train in Vain” foi regravada por Annie Lennox, ícone pop, líder da dupla Eurythmics; “Música de Amor”, da banda alternativa Autoramas, é nitidamente inspirada pela levada de “Lost in the Supermarket”; e “London Calling”, faixa homônima ao disco, foi usada como trilha de um confronto político-social no filme “Billy Elliot”, dirigido por Stephen Daldry.

Edições especiais são mais que bem-vindas quando servem como registros históricos, além de projetos caça-níqueis, que vem a ser o caso de “London Calling – 25th Anniversary Legacy Edition”. Se o cd um é suficiente para comportar um lançamento desse porte, as demos do segundo (“The Vannila Sessions”) e o documentário do dvd (“The Last Testament – The Making of London Calling”), servem para dar idéia aos fãs e estudiosos de música sobre como um trabalho sem maiores pretensões foi feito e acabou se tornando um dos álbuns mais importantes da história da música.

No fim dos anos 80, ele foi eleito pela revista Rolling Stone (a mais famosa publicação de música no mundo), o mais importante disco daquela década; e em dezembro de 2003 foi escolhido pela mesma como o oitavo melhor álbum de todos os tempos. Isso, talvez porque além de ótimas melodias, versos como “London is drowning – and I live by the river” (“Londres está afundando – e eu vivo à beira do rio”) ainda sirvam para reflexão, se adaptados à realidade nacional/mundial na qual vivemos. Depois dele, somente “American Idiot”, dos súditos Green Day, teve a mesma proeza de fazer todo o mundo refletir e cantar em versos a realidade do mundo afligido pela política, no qual vivemos. Todas as honras são merecidas!

Escute uma das faixas:

*Mod: abreviação de Modernismo ou Modismo, foi um movimento londrino que dava ênfase à vestimenta e música como seus principais emblemas. Iniciado na década de 50, teve seu auge em meados dos anos 60, com o sucesso de bandas como The Who e de filmes como Laranja Mecânica, de Stanley Kubrick.

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