Entre Tapas e Beijos: O Tecnobrega de Belém do Pará

Por Paulo Murilo Guerreiro do Amaral

Até “ontem” jamais havia pensado em pesquisar sobre uma música tão distante da minha realidade, seja em função do trajeto que percorri como músico de formação erudita, seja também por ter crescido em um grupo sociocultural pequeno-burguês atento a certos padrões de como se vestir, o que apreciar musicalmente, que lugares freqüentar, com quem relacionar-se, que profissões valorizar etc. A “moda”, através da qual estes e outros modelos se revelam, integra um conjunto de fatores que encorpam distanciamentos entre pessoas com estilos de vida já bastante diferenciados; implicam também na adoção de categorias como “chique”, “brega”, “elegante”, “fora de moda”, daí em diante.

Meus hábitos não iam mesmo além de seguir os costumes do meu pessoal – bem à risca, reforçando aqui a discutível idéia de que o homem é reflexo da sociedade –, exceto pelo gosto exacerbado que sempre demonstrei pela música dita “clássica”, traço gerador de frustrações em uma expressiva parcela dos meus pares. Tanto quanto estes reprimiam meu gosto musical “refinado”, eram também capazes de compartilhar comigo um sentimento de repulsa em relação a certos gêneros musicais de “mau gosto”, esteticamente “horríveis”. Assim como eu, queriam demonstrar “elegância”, mas com a particularidade de que davam costas à música pianística, sinfônica, operística, de câmara, entre outras modalidades eruditas. Embora não me ache melhor que eles por causa disto, por outro lado os percebo cada vez mais amalgamados a uma diversidade de músicas que estão na crista da onda, e por isso, “boas”. Do que vive a mídia mesmo?

À medida que fui me aproximando de outras músicas que não a de Bach, Mozart, Beethoven, Brahms, Chopin, Schumann, Verdi e Debussy, mais e mais venho sentindo a necessidade de compreender o que implica no gosto musical. Sintomático nesta mudança de repertório de escuta foi a inclusão de diversos tipos musicais em minha modesta discoteca. Comecei com os “bons”, para que não me visse logo de cara velejando em águas estranhas; depois, gradativamente, fui ousando, ou transgredindo, para alguns.

Menos expressiva teria sido minha “transgressão” se não tivesse levado um empurrão repentino de alguém que já conhece bem onde estão os recifes que poderiam afundar a minha embarcação. Foi justamente ao passar a vista em observações escritas de Hermano Vianna – antropólogo referencial no estudo de músicas urbanas de periferia – que, definitivamente, virei o timão à estibordo e “transgredi” de vez, isto é, colidi com um enorme pedregulho e afundei-me junto com a nau. Só assim, com água até o pescoço, percebi-me em condições de buscar algumas respostas, caso contrário não teria arrebentado com o invólucro que me mantinha distanciado do tecnobrega, um gênero produzido e consumido especialmente em espaços de Belém situados afastados das áreas “nobres” da cidade.

Sob influência da Jovem Guarda – movimento que sintonizou a música brasileira com a fase do rock encabeçada pelos Beatles –, renovou-se no cenário musical nacional da década de 1960 o brega. Dos recantos do Brasil por onde o brega se difundiu, a cidade de Belém se destaca pela existência de uma variedade de estilos híbridos, provavelmente decorrentes daquele núcleo comum e também da familiaridade de compositores com músicas regionais e do Caribe. Dos mais recentes está o tecnobrega, que estreou nas periferias dessa localidade no verão de 2002. Caracteriza-se musicalmente por manipular timbres e ritmos em estúdio, lançando mão unicamente de computadores e de softwares “piratas” baixados da internet. Preliminarmente, o tecnobrega consiste na modernização do brega calypso (produzido por fontes acústicas e eletrônicas, traz sonoridades caribenhas acrescidas de guitarra elétrica), nele misturadas batidas aceleradas e elementos da technomusic.

Embora eu opte por não aprofundar discussões em torno do gosto musical, vale mencioná-lo, uma vez que enfoco neste breve relato aquilo que em mim desgosta meus “semelhantes”, isto é, minha gradativa aproximação com o instigante tecnobrega, para além de objetivos estritamente acadêmicos. Se o enfrentamento cotidiano desta rejeição tem sido o chão de brasas sobre o qual inescapavelmente preciso caminhar, ele também é o céu de estrelas que me direciona a outras percepções, algumas inclusive mais afastadas de juízos coletivos tacanhos que vêm fechando as portas para esta música.

Ao escutar um hit de tecnobrega pela primeira vez, imaginei e certamente mencionei que jamais compraria qualquer CD do gênero, muito menos participaria de eventos dançantes junto a centenas ou mesmo milhares de apreciadores das chamadas “festas de aparelhagem”. O desconhecimento da realidade, especialmente se de maneira proposital, é um lamentável mal social; pior ainda é opinar sobre o que não se conhece, favoravelmente ou não.

As “festas de aparelhagem” – verdadeiras boates ao ar-livre – vêm atuando como mídia principal de divulgação de uma música que integra um circuito não oficial onde coexistem produção em estúdios caseiros, compra/venda de CD’s “piratas” e veiculação/consumo musical através de aparelhagens sonoras itinerantes transportadas por caminhões de um canto a outro da periferia de Belém do Pará.

Impressionado com notícias sobre a mobilização de público gerada por estas festas, apesar de serem pouco divulgadas nas mídias oficiais, fui conferi-las a olhos e ouvidos nus. Ao fim de uma festa, saí dali completamente ávido por entender que força é essa que consegue simultaneamente contentar tanta gente e importunar outros tantos.

À medida que participava das festas, fui conhecendo proprietários de aparelhagens sonoras, DJ’s que operam as parafernálias tecnológicas que agitam as pistas de dança, produtores musicais, públicos diversos… Também cheguei à conclusão de que mal conhecia a mim próprio e do quanto este desconhecimento me poderia ser benéfico.

Certa vez, em Belém, sentado à mesa de um barzinho com amigos e assistindo a um show de MPB, criei coragem e comentei que estava estudando o tecnobrega para a minha tese de doutorado. A reação foi imediata, tanto a deles quanto a minha. Levantei a voz e disse-lhes que somente compreendia o acontecido porque um dia, infelizmente, já me vi por aí falando “asneiras” dessa natureza.

Sinceramente, a verdade é que pouco sabia sobre o tecnobrega para dar-lhes uma resposta mais à minha maneira. Isso requeria mais conhecimento da minha parte; continua requerendo, aliás. Eu estava sim imbuído de um desconforto semelhante àquele sentido pelas pessoas que carregam o estigma de ser “brega”, os que realmente conhecem a música.

Retomando um comentário anterior, lá estava eu deliberadamente falando sobre o que não conhecia. Assim sendo, numa tentativa de quem sabe abandonar meu discurso vazio em defesa da música brega – tão vazio quanto o discurso que lhe atribui a marca de “mau gosto estético” –, resolvi intensificar minhas idas às festas, além de acompanhar a produção do tecnobrega em estúdio. Foi quando conheci produtores como André e Beto Metralha, que me levaram aos seus laboratórios de criação musical.

Entender como se produz o tecnobrega ou qualquer outro estilo de música computacional criado nesses estúdios caseiros pressupõe conhecer minimamente os softwares especializados em sintetização sonora ali aproveitados. Creio que lidar com uma gramática tecnológica totalmente estranha àquilo que conheço em termos de música se configure no grande desafio metodológico de uma pesquisa que ainda está dando seus primeiros passos, além, é claro, de observar de forma incansável a relação pesquisador-pesquisados ao longo de todas as etapas do trabalho, através da qual poderei explicar, em parte ao menos, o que é ser “brega”, sob o ponto de vista de quem faz a música, dos públicos, ou mesmo daqueles que vêem nela “feiúra” e “cafonice”.

Meus pares que me perdoem, mas vou assistir agora – com muito gosto – ao DVD da Tecnoshow que ganhei de presente da Gabi Amarantos, vocalista desta banda de tecnobrega. Em seguida assistirei ao DVD da Banda Calypso, estouradíssima nas hits parades de todo o Brasil. Que me perdoem novamente os meus pares, mas isto tudo aí é música “brega”. Dessa forma, em vez de buscar respostas para o “ser ou não ser” (quem é/quem não é) “brega”, prefiro apostar no entendimento sobre “o que é ser ‘brega’”.

Paulo Murilo Guerreiro do Amaral é doutorando em musicologia pela UFRGS

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