Você viu o show dos Rolling Stones? Então me conte.
Por Debb
Confesso que desde a notícia do show dos Rolling Stones não fiquei tão animada. Para isto existem várias razões. Eis aqui a primeira delas: show na praia, gratuito (des)organizado pela nossa prefeitura. O mesmo problema de sempre: como chegar e sair de Copacabana no meio de mais de um milhão de pessoas?
No início fiquei até bastante otimista, peguei um ônibus na porta do meu prédio, o não muito distante bairro de botafogo, e em 15 minutos estava já em Copacabana, sem trânsito e sem confusão, numa hora em que o mesmo trajeto foi feito por cerca de 40 minutos no reveillon 2006. Pensei “os cariocas estão mesmo com medo desse show”. Carioca sabe o que é reveillon de Copacabana, já sabe as regras, já os fervorosos show-maníacos de outras cidades, não. Um ou outro já passou por aqui no reveillon.
A cara de um dos meus amigos paulistas que estiveram presente aqui no show ao olhar para a Rua Barata Ribeiro já quase 3 horas após o show, nunca esquecerei. Eu disse: “visão do inferno não é?”. Ele não conseguiu nem responder direito.
Algo simbólico como a cor das camisas, que ao invés do branco do reveillon eram em sua maioria pretas, já muda completamente o “clima” da festa, que parece mais ostensivo.
Agora vamos para a segunda razão de minha indigestão… Como se já não bastasse a antipatia das áreas Vips, a desse show conseguiu superar e muito todo e qualquer respeito pelos mais privilegiados. Além de serem mais de 5.000 Vips ocupando toda e qualquer distância visível do show, nesse em particular não tínhamos somente uma área VIP, tínhamos duas! Ora vejam só, agora temos hierarquia em área Vip, então não somente acontece a inveja do público “normal” pela área Vip, como temos também uma invejinha entre os Vips, os de camisetinha verde limão e os de preta. Circulavam como em passarelas pelas ruas de Copacabana. Mas é claro, aliás CLARO mesmo, o show era pra eles, o povo estava lá só para fazer número, porque ver o show era certo que não. Uma atitude muito simples e, não tão cara para um evento desse porte, com tantos interesses econômicos que não o circo do povo, teria amenizado o empurra-empurra das areias: por que não telões em diversas áreas para que os espaços fossem melhor aproveitados? Não, telão é coisa cara! Realmente mudaria muito o orçamento “do maior show de rock da história!”.
De fato telão no palco principal era grande, era lindo, mas infelizmente não era visível por muitos pontos da praia, o que fez com que infelizmente tivesse que disputar um espaço na areia, algo que não pretendia. De cinco em cinco minutos, claro, depois do maldito empurra-empurra de início de show, momento em que todos resolvem se movimentar e que o local onde você assistirá o show não é de sua decisão e sim de onde seu corpo arrastado parar… Mas como eu dizia, antes de me perder na indignação, de cinco em cinco minutos eu via um pedacinho do telão. Stones? Não vi nem um fio de cabelo. Dois palcos né? Onde? Não foi possível perceber. Deve ter sido lindo…
Num pensamento mais catastrófico após ver hoje foto aérea do público no show, me faz pensar que pelo menos os pobres coitados não-vips e “convidados extras” do show, tiveram um pouco de sorte. Não é que não teve arrastão minha gente? Parabéns ao prefeito! Deve ter sido de fato pelo policiamento circulando, que vi somente uma vez e, claro, CLARO, 15 policiais juntos. Nenhum deles estava perto ou visível nas várias vezes em que tive que segurar forte a minha bolsa ou dar uma corridinha pra não ficar em situação ameaçadora e sem celular. Celular que a Claro certamente não me daria outro. Claro!
E voltemos aos Vips, eu me pergunto, qual o propósito mesmo das emissoras terem fascínio pelo tema? Lembro de uma matéria enorme explicando como são selecionados os Vips e de uma frase de uma produtora que dizia “Vip que é Vip não aceita logo de cara, os Vips de verdade não querem ir ao show, você tem que convencê-los”. Não foram certamente essas as palavras, mas a mensagem de que se você é vip ou pretende iniciar carreira, faça cu doce, só assim você será um Vip de verdade. De forma alguma diga que você quer muito ir ao show, isso não é bem visto pelos produtores, caso contrário você entra para a categoria dos “pedintes”, uma espécie de tentativa de emergente mal sucedida.
Tinha medo desse show sendo ruim, minha excelente memória do show desta mesma banda em 1998 nas turnê Brigdes to Babylon, ficasse estragada, mas felizmente não (eu não vi o show, lembram?)
O palco do show de 1998 não se compara, a energia então era indiscutivelmente maior. Um dos melhores shows da minha vida. Eu entre meus 18 e 20 anos tive a oportunidade de assistir os shows mais disputados desta semana, U2 e Rolling Stones naquela época, sendo que um deles (U2) já demonstrava o início da catástrofe dos futuros shows de rock de grande porte (levei 4 horas para chegar em casa de um trajeto de 40 minutos). Eu tenho na verdade pena, e sinceramente bate uma forte melancolia nesse momento, em pensar que muitos amigos alguns anos mais novos, não puderam pegar essa fase de grandes shows há quase dez anos atrás. Fico triste em pensar que essa será a memória de show dos Stones.
“Ah bom e o show? Não vai falar algo dele?” Como poderia? Não vi, não senti. Gravei da televisão, talvez veja algo legal. A verdade é que não faço nem questão de ver no momento. Sabe qual será a sensação? A de “o show que eu não vi”, logo eu, que precisa de bons shows quase que como uma energia vital. Tipo de coisa que dá depressão.
Quer saber como foi o show mesmo? Pergunte aos Vips, o show era para eles. Crítica mal-humorada, mas sincera. Talvez eu mude um pouco de opinião em alguns dias. Ou não…




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