Hipersônica: escutas e dispositivos coletivos multimidiáticos

Por Giuliano Obici

O Hipersônica, versão audiovisual em tempo real do FILE (Festival Internacional de Linguagem Eletrônica) que aconteceu no dias 5 e 6 de Novembro de 2005 em São Paulo propiciou uma experiência singular de imersão sonora e imagética. O evento reuniu na Casa das Caldeiras sete espaços de performance operados simultaneamente durante quase 12 horas ininterruptas.

Longe de ser comparado as tradicionais festas urbanas ou mostras de arte o Hipersônica se configurou em um ambiente multimidiático composto por aparatos tecnológicos onde a linguagem eletrônica se fez presente. Um possível presságio do que possa vir a se tornar os ambientes das festas, pubs, boates, teatros e galerias num futuro breve.

Passado algum tempo do evento em São Paulo, perguntas ainda ecoam a respeito do que representa à escuta uma mostra como o Hipersônica. Que lugar de escuta ele propicia? O que os meios eletrônicos possibilitam à percepção auditiva? Que tipo de implicação coletiva se produz? Tais perguntas podem não fazer sentido para alguns, no entanto, possibilitam pensar sobre o lugar que a percepção auditiva ocupa nos ambientes em que a tecnologia é utilizada com maior vigor.

Contextualizando

Desde meados do século passado, quando o gravador de fita possibilitou a manipulação dos sons por um outro meio que não a partitura, bem como a produção de sons via geradores elétricos que não os instrumentos musicais convencionais, muito se mudou sobre o que se entende por música. Os meios eletrônicos atualizaram e potencializaram rupturas estéticas que ocorreram na história da música século passado. Estruturas musicais como melodia, ritmo e harmonia passaram a ser recusados pelos compositores, onde muitos passaram a operar dentro do campo do ruído. Num outro plano de manipulação da sonoridade o próprio conceito de música foi posto em cheque.

Considerando os diferentes contextos, é possível dizer que o Hipersônica propõe uma outra forma de se relacionar com a música, graças a utilização pesada dos recursos audiovisuais. Isso também se dá pela maneira como foi planejada a estruturação dos ambientes de performance, bem como o lugar de escuta a partir das recentes formas de produção sonora via eletrônica.

Caldeirão sônico

A simultaneidade dos espaços de performance tornou a Casa das Caldeiras um verdadeiro caldeirão sônico. A “grande massa sonora” composta pelos mais distintos espectros e ruídos propiciou um lugar de escuta o qual não se tinha a exata noção onde começava a performance de um artista e onde terminava a de outro. Os sete ambientes se tornaram um Território Sonoro não totalizante, atravessado por diferentes faixas de freqüências, com diferentes propostas convivendo ao mesmo tempo sem o propósito de constituir a unidade.

Com a mistura das performances a escuta dos diferentes espaços não foi privilegiada. A sutileza, a nuance e as variações foram prejudicadas, muitas não se tornando sensíveis aos ouvidos.

Aprisionamento auditivo

O bloco sonoro que constituiu o Território Sonoro do Hipersônica propiciou a sensação de aprisionamento auditivo. Muros sônicos foram levantados a ponto de criar uma espécie de prisão aos ouvidos, uma forma de terrorismo semiótico sonoro. A sensação de aprisionamento auditivo foi levado ao extremo certo momento por uma das performances que fez a pista principal se esvaziar devido a intensidade sonora produzida que atingia ao limite do suportável, a dor nos ouvidos.

Exercício de escuta ou tonificação auditiva?

Por certos momentos, a impressão era de que o Território Sonoro do Hipersônica exigia um esforço à escuta, como simulando praticas de tonificação muscular aos ossos do ouvido interno e a própria tolerância psíquica frente ao desconforto e limiar de dor. A sensação era de estar numa academia de ginástica auditiva, fazendo exercícios para aumentar a capacidade de suportar a potência dos decibéis emitidos pelas caixas, bem como processar tantas informações sonoras ao mesmo tempo, levando a uma espécie de esgotamento e esvaziamento da percepção. Talvez seja esse um outro paradigma da percepção auditiva hoje, que rompe com uma tradição de escuta pautada nos padrões musicais.

Música ou sonoridade?

Melodia, harmonia e ritmo foram questões outras que não fizeram parte de muitas performances daqueles que lidavam diretamente com a produção via eletrônica. Aos que não suportavam tamanho desconforto frente à ausência de padrões musicais tradicionais, existiam espaços para o dubb, lounge e apresentações de bandas de rock, reggae e experimental. No entanto, o que se privilegiou foram apresentações de grupos que trabalham com a linguagem eletrônica, num plano mais experimental, seguindo o propósito do FILE.

Outro lugar à escuta

A fruição estética contemplativa não era a preocupação num evento como este, até porque, a postura de muitos artistas era exatamente de destituir esse lugar de escuta, esse lugar da arte protegida pelas paredes do teatro, da galeria, da sala de concerto ou do fone de ouvido. O lugar era outro, um lugar de invasão. O som e as imagens não pareciam querer produzir um sentido absoluto como na “Grande Arte”. Os meios eletrônicos parecem possibilitar esse esvaziamento do sentido, ainda não cooptado pela escuta proposta pelas rádios e veículos de informação totalizantes.

Culto a tecnologia: expressão do maquínico e do consumo?

Por ser um festival de linguagem eletrônica o culto a tecnologia se tornou evidente. Algumas performances demonstraram certa despretensiosidade quanto ao uso das ferramentas. Mais do que propostas artísticas o aparato eletrônico parece criar uma demanda de uso e consumo dos equipamentos, onde o que se torna expresso é a própria dimensão compulsiva do consumo de sons. Uma produção, certos momentos, excessiva de sinais que pareciam anestesiar a percepção auditiva em virtude da quantidade de sons.

O que tal parafernália tecnológica parece produzir é um outro meio onde a expressão é a própria potência das ferramentas. A expressão não é o sentido, ou o desejo que dispara a criação do artista, mas o próprio desejo de expressar o diferente que a tecnologia possibilita com maiores possibilidades. Uma certa dimensão maquínica do som apenas possível graças ao aparato tecnológico.

Des-agenciamento dos corpos

O Território Sonoro do Hipersônica não possibilitou certos encontros. Quem foi para se aproximar, fazer contato, ou “azarar” alguém pôde se frustrar. De alguma forma, o som não aproximava os corpos, afetava de maneira distinta. Se houve encontro ele aconteceu com a própria potência dos meios, um outro tipo de encontro, interação entre entidades imateriais dos meios tecnológicos.

Quem foi pensando que iria vivenciar algo próximo da pista de dança também pode ter saído frustrado. As escutas eram múltiplas e tornavam os corpos aprisionados pelo olhar das projeções no telão ao invés dos corpos-carnes-afetos entre as pessoas, como supostamente se espera nas festas rituais onde o agenciamento do encontro entre os corpos tende a existir com maior intensidade.

Produzindo corpos auditivos

O que se pode vivenciar não era a música de pista, em que o pulso faz os corpos vibrarem dentro de um padrão temporal, elemento fundamental no transe e na dança. O corpo estava todo cindido, fragmentado, dividido.

A escuta ao mesmo tempo não parecia mais estar apenas no ouvido, mas no visual, no tátil, mas no corpo todo. A mudança constante das imagens produziam pulsos, as freqüências graves produziam tactilidade. Uma escuta contaminada pelos poros, por todos os buracos possíveis, não fazendo sentido o lugar seguro do pulso ou da melodia, a escuta parecia buscar outros ‘cantos’, outras pontos onde se cruzam os sentidos.

O acontecimento Hipersônica

Essas reflexões podem demonstrar como o Hipersônica, de alguma maneira, conseguiu provocar estranhamentos dos mais diferentes tipos, até por não se enquadrar nos padrões de festas urbanas e eventos de arte produzidos comumente.

O Hipersônica operou numa linha tênue que beirou o estranhamento, a produção de lixo estético tecnológico, ativismo semiótico e tecnológico, terrorismo midiático e devir maquínico da percepção. Um verdadeiro caldeirão sinestésico que tornou a Casa das Caldeiras uma grande usina de produção de sensações, mais estranhas para uns e menos para outros. Uma mistura explosiva de signos que, ao mesmo tempo, tornaram os corpos paralisados frente ao volume de informações a serem processadas.

Dimensão social da tecnologia

Estas constatações não parecem se restringir ao Hipersônica, mas faz pensar na maneira como lidamos com a tecnologia. De alguma forma, a interação pelos meios digitais não conseguiu ainda construir efetivamente um plano de fortalecimento humano e social. Ainda é de se esperar que esses planos (sonoro, imagético, tátil etc.) criem estratégias diferentes de convívio entre as pessoas. De alguma forma, o Hipersônica expressa uma tentativa de produzir esse tipo de agenciamento coletivo em torno da produção artística via meios tecnológicos, mas não parece constituir dispositivos de aproximações humanas efetivos. A impressão é de que não se tem pensado a dimensão social-política-afetiva que a tecnologia produz através dos territórios que se criam a partir da escuta via a linguagem digital.

GIULIANO OBICI
Músico e psicólogo. Mestrando em Comunicação e Semiótica na PUC-SP, onde desenvolve pesquisa sobre o tema dos territórios sonoros a partir de uma perspectiva da filosofia da diferença, sob orientação de Sílvio Ferraz. Integrante do grupo de experimentação em música e tecnologia no Laboratório de Acústica USP com Fernando Iazzetta. Forma um duo com o compositor colombiano Julian Jaramilho onde desenvolvem instalações sonoras interativas no ambiente de composição MAX/MSP.

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[...] Leia um texto sobre o FILE escrito pelo Giuliano Obici aqui mesmo no Cafetina [...]



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