Vida Eletrônica
Por João Francisco
Algo chama atenção na publicidade espalhada pela rua. Lembra da campanha do MC Donald’s “Amo muito tudo isso?” Trazia a foto de uns sujeitos soltos, flutuando como se estivessem numa órbita desfigurada, sem chão. Engraçado que o MC Donald’s, conhecido por seus hambúrgueres gordurosos (heavy) investisse numa imagem assim tão… leve. E essa propaganda mais recente do Nokia Trends? Quem é do Rio ou SP, viu. Exibia pessoas dançando com aquela “aura” deslocando do corpo, aludindo ao movimento e à vibração. Parecia fazer referência ao modo como estamos existindo por aí em nossas vidas mesmo. De certo modo um pouco fora de nossos corpos. Meio “desmaterializados”. Idéia estranha? Mas não é esquisito pensar que agora ocupamos - além do surrado 3×4 na carteira de identidade, um lugar ao sol (melhor dizendo, ao elétron) em orkuts, fotologs, blogs, msn, sites, páginas e páginas com links para outras páginas. Pilhas e pilhas de arquivos digitais acessados em celulares que produzem fotos, que gravam cenas, que transportam mais arquivos para outras páginas - com o nosso link, com o nosso nome, com a nossa cara. Não te parece excitante? Não te parece comum?
Nos últimos anos atravessamos (antenados) uma enxurrada de lançamentos tecnológicos em quantidade jamais imaginada e não poderíamos escapar imunes. As conseqüências disso podem ser notadas no modo como operamos com as coisas a nossa volta. Numa palavra, a informática altera o modo como nos comportamos, sentimos, pensamos. Aprendemos a nos transformar muito rápido. Ficamos um pouco cyborgues, agora. É cada vez mais simples nos conectar, e isso não se resume aos manuais de instrução dos aparelhos digitais. Penso que essa facilidade de chegar, instalar & partir se aplica (é um aplicativo) ao nosso dia a dia em tantas outras dimensões. Ganhamos um free-pass para o self. Lembre por exemplo o número de relacionamentos desfeitos. Parece a lista de músicas de um Ipod? Normal. Em contrapartida, pense o número de pretendentes. Animou? Celebre. É assim, instalar & partir. Você não tem vontade de fazer as malas e pegar o avião e fazer isso muitas e muitas vezes? Parece comercial de cartão de crédito, um pouco clichê. Mas é real. Eu não quero permanecer no mesmo lugar por tempo demais. Prefiro quando uma faixa passa pra outra sem dar tempo de perceber. Se eu tivesse de escolher um adesivo de identificação, estaria escrito: Livre-transporte. Atenção: todos os lados para cima.
Tentando não soar como ficção científica, acho mesmo que aos poucos a humanidade vai desenvolvendo uma nova adaptação, uma USB existencial para cabermos em tudo, e igualmente não se fixar em nada. Isto não é resultado de um inquérito seríssimo do MIT, só o registro de impressões que eu percebo. Tudo anda muito veloz, não é mesmo? Se não me encontrar manda um e-mail, deixa um scrap, passa um torpedo, ou seja, no fundo não há como não me encontrar. Os portáteis nos tornaram simultâneos. Estamos em tudo. De dia somos uns quinze, de noite no mínimo cinco. Prontos para revezar e retomar o fôlego numa long-list com vinte Djs. Toma arrebite, aconselha um amigo. E nem pense que estou reclamando, veja bem. A cidadania digital é um destino inevitável. Nada mais banal que nossa vida eletrônica. E nada mais divertido.




Nenhum Comentário so far
Leave a comment
Deixe um comentário
Quebras de linha e parágrafo automáticas, seu email nunca será mostrado, HTML permitido:
<a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>